Um gosto salgado misturado à minha saliva me condena a beber o passado.
O sal é a memória do corpo e destila em meu interior.
O equilibrio do sabor de algo tão distante que há tempo não tinha acesso.
A lágrima da Natureza me convidou, abriu as portas e me deitou no sofá da sala.
Deitei a chorar, soluçar minha estrada, meus caminhos.
Fui transportado para um lugar empoeirado, vazio, sem luz.
Um espelho de luz e água e raios expôs como lanterna o obscuro de minhas memórias.
A chuva fina me deixa um pouco nostálgico. Miro o horizonte. Mar de casas amontoadas, de vidas, alteridades...
Olhos nas torres à distância, minha bússola para não me perder?
Meu lar de infância, olhar enviesado entre o passado e o presente. Meu corpo está situado na mesma localidade e meu passado está lá...
Cheiro de terra molhada, palmeiras, roseira.
Os meus espinhos e o meu melhor cheiro.
O café da manhã e o almoço em bolinhos de feijão, comer de mão.
Avó materna, maternal minha amada Nanã, extremamente friorenta e rabugenta.
Estou lá em instantes, na paisagem que me obrigava a brincar em casa num teatro de bonecos, casa cheia de crianças, remendo nas roupas, suor.
Meu coração dói de saudades, da dor e da delícia.
Volto correndo. Estou deste lado de cá. Pés no piso acinzentado.
"Cheiro de terra molhada é proibido dizer porque traz consigo a morte!" Lembro de minha avó...
Meu piso não é cimento vermelho. É cinza-esbranquiçado e frio.
E minha alma que era como o piso nos meus pés se torna cada vez mais "pecilotérmica".
Minhas tias sempre diziam de mim carinhoso, dengoso, abraços afáveis e mão frias no frio e quentes no calor.
A aula de Biologia resolveu o mistério:
"Minhas mãos são pecilotérmicas."
Estou de novo entre o piso vermelho e o cinza, entre o frio e o quente, estou sem controle entre o hoje e o ontem.
Minhas mãos continuam intermitentes e o piso cinza.
Mudei. Aos poucos mudei, mas trago em mim tudo. As rosas, espinhos, palmeiras, paisagem, Minha avó e o feijão amassado, o café, a censurada terra molhada e todas as dores e delícias de ser quem eu sou.
Meu piso é acinzentado, mas já esteve vermelho e voltarei quando precisar, fecho os olhos e abro, alteridades, torres, casas amontoadas, vidas nostalgia, comunicação, Federação...seco as lágrimas e me olho.
Onde cheguei? O que conquistei? Encontro alguém frente à frente no espelho dágua, cispartido entre o passado e o presente...
Eu.
Andei refletindo sobre o axé baiano e seus percursos. Como participante e consumidor da cultura de axé desde os seus primórdios, me lembrei do tempo que eu dançava requebra com a poesia inconfundível de um Pierre Onasis que esbanjava sensualidade quando falava da mulher como musa de sua música rebolativa e alegre.
Nas poeiras dos meus pensamentos(tomei cuidado ingerindo um anti-alérgico antes porque o negócio é perigoso para quem tem rinite alérgica) encontrei uma letra contemporânea à de Pierre que poderia muito bem se adequar à nossa atualidade e os rumos que alguns grupos de pagode resolveram adotar. Gostaria de ressaltar que o meu lugar de fala é de um consumidor da cultura, portanto, não há aqui, evidentemente, nenhum ataque aos ritmos mencionados. Voltando a letra muito divertida, me lembro de uma cantora que parecia levar na cabeça uma tocha incandescente e com os dentes enormes dançava para frente e para trás como a uma galinha.
A Roda Sarajane
Vamos abrir a roda
Enlarguecer
Vamos abrir a roda
Enlarguecer
Tá ficando apertadinha, por favor
Abre a rodinha, por favor
Abre a rodinha, por favor
Abre a rodinha
(repete)
ô meu neguinho eu tô ligada em você
ô meu neguinho eu tô ligada em você
Se você quiser me ver, sabe encontra
O desejo de te ver é que me faz te amar
Vamos abrir a roda
Enlarguecer
Vamos abrir a roda
Enlarguecer
Tá ficando apertadinha, por favor
Abre a rodinha, por favor
Abre a rodinha, por favor
Abre a rodinha
(repete)
Essa dança apareceu, minha neguinha
Foi tirada de uma ave, de uma galinha
Deslizando pra frente e pra trás
Abre a rodinha, meu amor
Abre a rodinha, por favor
Abre a rodinha, eu quero ouvir
Abre a rodinha, meu amor
Abre a rodinha, eu quero ouvir
Abre a rodinha, por favor
Abre a rodinha, eu quero ver
Abre a rodinha
Interessante perceber a inocência da época em comparado aos sucessos atuais, que como toda a música de massa invadem nossos ouvidos através de enormes caixas de som alheias e na pausa do Mp3 player, percebo curioso essas invencionices vendíveis à nossa sociedade.
Ela se excita
Levanta a garrafa de whisk
A perereca dela
Pisca pisca pisca pisca pisca
Por favor apague a luz
A luz, a luz
Mas quando chego na boate
Ela se excita
Levanta a garrafa de whisk
A perereca dela
Pisca pisca pisca pisca pisca
Abecedário, abecedário, abecedário da alegria
Vou te comer todo dia
(a , b , c , d) abecedário da alegria
(a , b , c , d)
(bis)
A - aquece a perna
B - buchechada
C - com carinho
D - devagarinho
E - eu tô gostando
F - faz meia lua
G - gordinha gostosa
Ela pede, ela pede
Bota com raiva, bota com raiva
Bota com raiva
Muito bem, evoluímos e num breve clicar(sites de letras de músicas) percebo o quão mais avançados estamos no que tange a liberdade sexual na música, ou poderia dizer libertinagem? Será que precisamos levar nossas intimidades de forma tão escrachada para os espaçoes de diversão? Imaginem se "A Roda" fosse apropriada para o mesmo movimento literário de "Perereca Pisca"?
Em tempo, gostaria de mencionar como um destaque de criatividade na composição de pagode "A liga da justiça" aliviou os meus sentidos no último carnaval.
Percebo que tais liberdades do léxico libertino na música baiana podem ser levados com poesia como no exemplo da linda musica-desabafo de Tomate "Eu te Amo Porra!".
Hoje senti uma saudade imensa de Sarajane e de Pierre Onasis e me senti assim um pouco fã de Gerônimo que descreve na sua visão de marechal do axé baiano a evolução do nosso processo de criação musical.
Entrego a ti, Tempo...
A saudade que eu sinto, os meus planos, minha alma.
Entrego a ti, Tempo!
Minhas demoras, minhas pressas.
Entrego a ti, Tempo!
Minhas decepções, meus arrpendimentos.
Entrego a ti, Tempo!
Minhas vitórias, minhas derrotas, meus inimigos
Entrego a ti, Tempo!
Nos veios de suas mãos enrugadas percebo a força da sabedoria, no vento que me envolve, sinto a força que me transita e você Tempo, me provém...
Tempo nos olhos azuis dos idosos, na sabedoria, na luz de cada dia, o seu dedo, sua força, seu axé...
Minha raiz é verde, minha força caule, Tempo me plante, me cultive e com você eu crescerei.
Quero dormir no seu ventre árvore, me envolver clorofila, me envolver sabedoria....
Coruja é pouco para mim.
Macuradilê! Zara Tempo!
Hoje de manhã senti um cheiro conhecido,
Uma mistura café, incenso de canela, folhas e dendê
Hoje senti saudade daquele cheiro que cultivava
De súbito me arrepiei e percebi que sentia falta de mim
Hoje senti o cheiro de chá verde e o mofo e do lixo sem jogar.
Plantas mortas, velas, alecrim, cozinha e expectativa.
É percebi que a constância era minha externamente e internamente mudava
A margem do rio e a espera só me fizeram gritar com os poros o que eu não quero
Meus sabores de pimenta calabresa e macarrão instantâneo eram de uma felicidade ou de uma tristeza adiada?
Hoje quando sinto esse cheiro misturado na minha casa percebo que nunca estive inteiro em parte alguma porque não sou inteiro, não posso ser. Sou intercalado de situações, um ser intercalado, intermudo.
E quando mudo é quando mais falo.
E falo forte alto com meus olhos, quem disse que a revolução não se dá por dentro?
E dentro de mim travei e travo lutas e nunca terei certeza da vitórias enquanto essas vozes não calarem
Espero que nunca calem.
Café, incenso de canela, alecrim, dendê, pimenta calabresa, mofo, lixo, música...lembranças...manhã.
Estrada tortuosa onde um dia o motorista é aprendiz e o aprendiz motorista,
A vida é intensa formação.
Eu estou voltando a mim emergindo e o ar que entra pelos meus pulmões.
Sou pleno em poesia e fé.
Recebi a forma agora serei ação.