quinta-feira, 24 de janeiro de 2013


Ode a Odé

Ai, Pai Oxossi!
Como me arrepia o vento que vem de mim quando é você.
E me misturo peles, caças, matas,
revolta e rodopio...
o mundo inteiro para você me ver por dentro
de onde vem o arrepio
que é o ímã da ponta da sua flecha no meu coração
de caça e de caçador.
Guia minhas mãos, pois é você quem no mais fundo
da mata,
soul.

quinta-feira, 10 de janeiro de 2013

Pro-fi-le

Quero reinventar uma vida pra mim
Sem baques, nem bofetões, 
nem mesmo o olhar atento daqueles que esperam
o ínfimo erro para "cuidar" de mim
Quero reinventar uma vida pra mim
Pode ser rede social, com bytes e bits.
Caracteres com ou sem características
Caracturas de mim ou do que penso ser
Quero reinventar uma vida pra mim
Sem papéis pre-definidos, minha estética
cort
ando o ar rarefeito da mesmice
Quero reinventar uma vida pra mim
Desde que saí desse lugar que tirou o maior pedaço
Do que pensava o meu príncipio e se tornou fim
Quero reinventar uma vida pra mim
Um perfil, uma fanpage, um memorial pós-moderno
Lá eu sorrio sempre
Lá depois que me for alguém pode fechar
Mas também pode continuar a ser eu e sei que serei lembrado nas melhores poses.
Quero re-inventar uma vida onde minha mão não tenha segurado alças de alçar vôo desconhecido e que a palavra saudade não rime com filho.

sábado, 10 de novembro de 2012

Aos meus nós



Não era nada simples. Primeiro passava alguns dias conversando com eles, negociando. Pedia-os que se acalmassem, que facilitassem o trabalho, chamava os nomes de fofoqueiras para soltar os nós. 
Me lembrei dos nós que desfiz para me formar assim, essa imagem... 
Há um tempo atrás, na minha família dizia-se que bonito era estar sempre aparado, cortado, limpo. Era assim, visual limpo e bem tratado.
Lembro-me do contrassenso...conheci pessoas maravilhosas limpas, tratadas, mas pouco aparadas e o que sempre me admirou foi essa inteligencia que parecia morar nas voltas crespas que levavam na cabeça.
Hoje estou aqui...
Me lembro que passeava até a faculdade e olhava a copa das árvores, eu via nelas as formas que queria na minha cabeça...engraçado...gostaria que fosse diferente, mas não foi uma consciencia, nem moda, nem o movimento black power. Eles me invadiram pelas copas das mais altas e bonitas árvores. Queria ser como elas. Queria ter aquelas formas. Mal sabia que ao optar por esse visual plântico eu receberia toda uma gama de elogios e interditos. E eu ainda estou com eles esse mundo crespo de significações...essa metamorfose de um mim escolhido e não  predisposto por uma conduta mais aceitável de beleza. Hoje olhando no espelho me sinto devolvido aos meus traços, aos meus gostos, a minha beleza. Continuo conversando com eles...a dor do desembaraço é uma lembrança do tipo de luta que meu corpo trava todos os dias. O desembaraço é demanda da cor. a dor é o prazer de meu corpo liberto e integrado àquilo que escolheu para si. Nunca te escrevi carapinha, saiba que te amo assim como amo cada a célula da minha pele que hoje estão livres graças aos ancestrais geradores de uma cultura que tem como marca sobreviver.

sexta-feira, 27 de abril de 2012

A minha Oxum

Ah Senhora das Águas! 


Quando você me toca fico 


sem hora das lagrimas, 


do pranto, 


do canto 


e 


eternamente sem hora das águas.



sexta-feira, 23 de março de 2012

Reflexões sobre aulas em Paripe

Ah esses caminhos de mangue e estrada me roubam
Eles me zooneiam às avessas e sigo-o na linha da estrada...
Perco-me em pensamentos...
Qual a minha real necessidade?
Minha linhagem é essa...
Esse bicho que me atormenta
O auto-questionamento necessário
Pergunto as minhas teogonias pagãs
Pergunto ao trilho, o mar, a lama
Desisto! Não vou conseguir!
E choro...
Refluo desse eu...supostamente fraco. O choro dos meus demônios...
Não sou capaz! E choro mais, a cabeça dói até descobrir...
Chorar é um ato de força e coragem
Descubro...
Atrás da cachoeira que margeia esse mundo barroco-postal...
Há pedras antigas
pedras de raio, pedras de rio, pedras de mar, pedras de trilho
E ouço o grito rasgado do índio que me margeia dizendo
Chorar, meu filho, é se recolocar no lugar que já nasceu seu ser
Grite! Chore, mas ande!
Adiante Guerreiro-gentil...
Ande sobre todas as águas, mas com as pedras firmes nas mãos
Ande meu Gentil-guerreiro, mostre a ponta do ofá
E rasgue delicadamente os limites do provável
Suplante as estatísticas, rasure...
Ande Guerreio sobre as águas e mostre o milagre
que te ensinei a viver...

quinta-feira, 9 de fevereiro de 2012

Kabiesile

Seis vezes a medida da direita
seis vezes a medida da esquerda
uma decisão
Xangô
Não há pendor, balança equilibrada
Me cavalga meu pai
Quero meu corpo forte para me carregar com seu axé
Para carregá-lo, cavalo que sou
Kaô, Kaô
Meu pai gritou na minha cabeça
O jogo fechou
E ali só a justiça pairou
Silenciosa, solene, forte, como se depois de um trovão
junta-se os cacos e o caos dos seus Kaôs fez a dúvida em pedaços
Construída agora sob a sua ótica, honesta, justa, gozadora
Kaô meu rei corta com seu machado as pedras e lança meu pai
Lança no meu destino
Seja, como senti hoje, eu e você
Dono de meu Odu
de meu ifá...
Pai deitarei um milhão de vezes a cabeça no chão
porque você grita agora na minha cabeça
Que hoje é benção e salvação.


sábado, 4 de fevereiro de 2012

Vultos sem fusos


Meu olhar fotográfico, congelador, condensador, fixa o alvo.
Aponto o ofá, miro a seta. Pronto para atirar, só vejo a imagem ora esmaecida, ora nítida...
Esse movimento da estrada em viagem, esse movimento da queda inesperada, do empurrão, do avião...
Esmaecidamente, eu-caçador, debato-me tentando apreender, aprender, aprisionar o cheiro, o gosto, o momento...
Senta-se ao meu lado e ao mesmo tempo está firme no palco.
Olho com espanto e ele me diz:

Minhas faces são muitas, minhas linguas todas...
Porque espantas de ver aquilo que carrega?
Tomo chapeu do compadre e visto-me inteiro com sua roupa quente...
metade vermelho, metade preto
Para causar a confusão de meus vizinhos que discutem direita e esquerda, qual cor é a verdadeira...
Eu de chapéu concluo : Não importa a verdade, importa se a liberdade é preta e a luta vermelha(tudo cabe aqui na roupa, na camisa, na alma)

E continua:

E eu sou, vou e sempre serei a eterna confluência,
a morte do signo fixo e da verdade
A vida da dúvida
sou encruzilhadas eternas,
eternas movências,
o que esmaece é um nada do que consigo ser e não ser,
meu nome compadre é o que você tem ou não tem!

Sim!...Sim?...Não?...Não!